quarta-feira, 26 de abril de 2017

[Especial] Coração Satânico


Já comentei aqui no blog que costumo favorecer o material fonte sobre suas adaptações pelo simples fato de que a ideia original, o argumento proposto pela obra original, nem sempre é preservado na transição entre mídias. Não que adaptações de livros para o cinema – para ficarmos mais próximos ao tema deste texto – não possam gerar bons filmes: há muitos filmes famosos que foram baseados em livros e que conquistaram tanto sucesso que acabaram ganhando vida própria (“O Poderoso Chefão”, “Tubarão”, “Forest Gump”, entre muitíssimos outros, sem falar nos casos em que o filme superou tanto o sucesso do livro que a maioria das pessoas nem sequer sabe que se trata de uma adaptação, como é o caso de “Duro de Matar”). O ponto aqui não é exaltar a literatura acima do cinema e sim deixar claro que uma adaptação não é suficiente, não transmite com fidelidade, propositalmente ou não, os argumentos da obra original e que, portanto, vale sempre a pena conferir o material fonte. Uma das minhas maiores surpresas literárias foi a constatação de que “The Warriors”, livros escrito por Sol Yurick, é muito superior ao “The Warriors” dirigido por Walter Hill: o primeiro é um mergulho na psique do jovem pobre Novas Iorquino, que vê no mundo das gangues uma possibilidade de conquistar a estabilidade financeira e o convívio familiar que a sociedade, pela maneira como se organiza, nega-lhe; o segundo é um filme sobre porradaria que, em muitos aspectos, glorifica essa mesma posição social trágica. O material fonte é uma obra de arte, sua adaptação é produto de uma indústria cinematográfica que, ao passo em que tem seu valor (é realmente um grande filme, muito bem dirigido), não faz nenhum favor ao argumento e às críticas sociais presentes no material fonte.


“Sabe, certas religiões creem que o ovo é o símbolo da alma. Gostaria de um ovo?”

E aqui entra o problema: será que “Coração Satânico”, dirigido por Alan Parker e lançado em 1987, é tão bom quanto “Falling Angel”, de William Hjortsberg? Infelizmente, a versão traduzida para o português encontra-se esgotada e, até o momento, conseguir uma cópia do livro exigiria busca em sebos por exemplares muitas vezes em mau estado. Existe a possibilidade de importar uma cópia ou ler online no idioma original, mas nem todos tem acesso a esta alternativa, seja pela questão financeira ou pela barreira do idioma. Felizmente, a editora DARKSIDE resolveu relançar o livro no Brasil e, como forma de aquecimento/comemoração, vamos falar um pouco sobre o filme de 1987 para, no futuro, constatar se faz jus ao romance que o baseia.


“O futuro já não é mais o que costumava ser, Sr. Angel”.

A primeira dificuldade que se impõe é que o filme, assim como o livro, contam com o artifício do plot twist. Se você já leu o livro o filme deixa de ser interessante, se você já viu o filme, não tem porque ler o livro, afinal, já sabemos tudo o que acontece, certo? De forma alguma. Na verdade, esse é raramente o caso. É verdade que a trama é uma parte importantíssima de qualquer romance, porém, não é o único elemento que compõe uma obra e, portanto, não pode ser tomado como desculpa para dispensá-la. Um romance não se resume ao seu final, há todo o processo que leva a história ao seu ponto final, há questões de estilo, argumentos, críticas, criação de mundos, enfim: um final só é tão poderoso quanto todo o ambiente ao redor do qual ele foi construído. Portanto, não há motivo para nos atermos a este tipo de detalhe: tanto o filme quanto o livro certamente possuem elementos que justificam seu consumo mesmo conhecendo-se o desfecho da trama. “Coração Satânico” é um dos meus filmes favoritos e eu nunca tive a oportunidade de assisti-lo sem saber o final, tomei esse spoiler logo de cara.


E o que há de tão especial neste filme? Na minha opinião, muitas coisas. Se falássemos só das atuações, por exemplo, já teríamos muito pano para manga. Mickey Rourke no auge da “galãzisse” interpretando o tradicional “detetive-particular-canastrão-adepto-a-comportamentos-autodestrutivos” que todos adoramos rever em Hollywood, Robert De Niro (que dispensa apresentações), no papel de um agiota/homem de negócios misterioso que parece ter conexões com algum tipo de submundo do ocultismo, Lisa Bonet como filha bastarda de um amor “proibido”, Brownie McGhee como um rabugento músico das antigas que vive de coquetéis e que odeia a imprensa. Assim como absolutamente todos os personagens, inclusive aqueles cuja presença parece ter sido cortada na adaptação (como a do músico Spider, interpretado por Charles Gordone), as atuações também são todas memoráveis. Harold Angel (Rourke) é um homem do norte, natural de Nova York, acostumado a lidar com as idiossincrasias daquela região, aceita o trabalho de um cliente excêntrico chamado Louis Cyphre (De Niro), que procura saber o paradeiro de um terceiro que lhe deve alguma coisa. Ao embarcar na investigação, Angel começa a afundar cada vez mais fundo num submundo onde o crime e a corrupção se misturam com a fé e a religião. Como esquecer o pastor protestante (e como negar o paralelo que existe entre aquele personagem e representantes religiosos reais?), que se aproveita da fé para conquistar ascensão financeira? Como esquecer do pequeno altar, para evitar spoilers, que Angel encontra nos fundos da igreja deste pastor? O universo de “Coração Satânico” está carregado de situações onde o homem corrompe o espírito, mas também, onde o mundo espiritual corrompe o homem.


“Agora, quero que me mostrem o quanto amam Deus! Quero que me mostrem! Quero que abram seus corações! Abram suas carteiras! Abram suas bolsas e bolsos! Deem tudo! Louvado seja Deus! Certas pessoas tem falado sobre mim, falam como eu ando por aí num Cadillac... Se vocês realmente me amam e querem dar a mim, então eu deveria estar andando de Rolls Royce!”.

Este é, definitivamente, um filme que deve ser reassistido. Especialmente porque a reviravolta final é construída com muito foreshadowing (termo gringo que serve para designar elementos de uma narrativa que antecipam de maneira fragmentária o desenrolar da história), e uma das coisas mais bacanas é observar todas as maneiras através das quais você poderia ter descoberto o desfecho mas o filme conseguiu te enganar. E não é apenas uma questão de elementos narrativos: as interpretações dos atores, a trilha sonora e até mesmo aspectos mais técnicos como a fotografia e a montagem, mudam completamente de tom uma vez que sabemos a verdadeira função que elas estão desempenhando por trás das cortinas.


Falando em aspectos técnicos, é impossível assistir este filme sem se impressionar com a fotografia. Seja pelos efeitos de luz e sombra ou pelos filtros utilizados, tudo na fotografia trabalha perfeitamente na construção de uma identidade visual que dialoga maestralmente com o cinema noir e não deixa a desejar em nenhum momento em comparação a clássicos como “Chinatown” ou o mais recente “Los Angeles: Cidade Proibida”. Adoro a maneira como a escuridão aumenta quando o protagonista faz algo moralmente questionável, a maneira como o vermelho entra em foco quando o pecado está em tela, a maneira como o medo de galinhas dele é constantemente reforçado, a maneira como elementos pagãos e satânicos são inseridos quase que subliminarmente, enfim: amo a direção deste filme.


“Eu não gosto de dívidas mal resolvidas”


A ambientação da película também é interessante porque escapa um pouco do que Hollywood tradicionalmente mostra dos EUA. Andamos por uma Nova Iorque suja, invadimos a residência de médicos viciados em seus próprios medicamentos, somos apresentados a enfermeiras que revelam todos os dados sigilosos de um paciente sob a perspectiva de um flerte casual. A Novas Orleans de “Coração Satânico” não é a capital do Jazz e sim do voo doo.




“Dizem que há religião suficiente neste mundo para fazer os homens odiarem uns aos outros mas não o suficiente para faze-los amar”

E para os religiosos, creio que não existem elementos ofensivos neste filme. É verdade que ele trata de ocultismo, satanismo, etc. Porém, em nenhum momento se procura passar uma mensagem nem pró-cristã nem antissemita. Muito pelo contrário, por mais que trate de um tema muito relacionado à religião, o filme é surpreendentemente neutro neste aspecto, trata muito mais de temas como “a impossibilidade de fugir de si mesmo” ou “as consequências inevitáveis que nossas ações acarretam, quer queiramos lidar com elas ou não. Talvez a única crítica que possa ser feita neste sentido é referente à demonização das religiões afro-americanas, representadas no filme por algo que presumo ser o voodoo. Admito que meu conhecimento a respeito dessas crenças é profundamente limitado, porém, e minha opinião aqui é baseada no pouco conhecimento que possuo, sei que os elementos retratados no filme fazem SIM parte de sua ritualística: creio que o problema do filme esteja em, assim como em muitas outras instâncias, mostrar apenas o lado sombrio dessas religiões, o lado corrompido, sem nunca dar espaço ao lado positivo que elas certamente carregam e que promove sua existência até os dias de hoje. Mesmo assim, na maioria dos casos os alvos das críticas do filme são os seres humanos, e não os seres sobrenaturais que os cercam, portanto, acho que esses deslizes são inofensivos se analisados no macro.


Em suma, pelo simples fato de ter gerado um filme tão relevante, “Coração Satânico” de William Hjortsberg já deveria ter sido republicado. É muito bom que o título esteja em posse de uma editora grande como a DARKSIDE por que isso com certeza garante que a obra permaneça acessível por um bom tempo. No mais, aguardo o lançamento para devorar o livro o quanto antes e, se tudo correr bem, publicar uma resenha aqui no blog. Só não prometo nada, por que promessa é dívida e eu também não gosto de dívidas mal resolvidas.

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