quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

[Resenha] Nimona


Qualquer um que tenha sido fã de quadrinhos por mais de 1 mês já deve ter se deparado com a necessidade incontornável de procurar vida fora dos buracos-negros super massivos que são a DC e a Marvel. Seja pela natureza repetitiva dessas publicações, seja pelo caráter apelativo das personagens ou pelo simples cansaço, não é exagero dizer que a sanidade mental de um leitor de quadrinhos depende destas publicações menos maquinais, publicações que não seguem, ao menos não à risca, os clichés dos heróis – nem que seja só para respirar um pouco antes de chafurdar mais uma vez no mar de capas, collants e inseguranças masculinas que eu tanto amo.


Para nossa sorte, existe sim vida fora destes dois planetas (que na verdade são um só ainda que os “fãs” teimem a dizer que não). E que vida! Esses quadrinhos mais distantes do mainstream tendem a abordar temas que os medalhões evitam a qualquer custo por precisarem responder às expectativas de um público, com o perdão do insulto, cada vez mais imbecilizado (se você acha que essa nova geração de leitores de quadrinhos, que veio na onda dos filmes, não se esforça para passar vergonha, acompanhe alguma sessão de comentários ou fórum e sofra de vergonha alheia enquanto eles argumentam quem é melhor arrolando arrecadações de bilheterias).  Mas claro que a vida alienígena não é feita só de Ashtar Sherans, e Nimona parece se encaixar bem no meio disso tudo: não é nem muito cliché nem muito disruptivo; usa tropos convencionais com um frescor admirável.


“Matar não resolve nada, Nimona. É grosseiro, só gera confusão.”

A premissa do quadrinho começa simples mas não permanece assim por muito tempo. Inicialmente somos apresentados a uma protagonista teimosa e um tanto infantil, a Nimona, que decidiu se aliar ao famigerado vilão Ballister Coração-Negro em sua empreitada de aterrorizar o reino. Ballister não pediu a ajuda de Nimona e se mostra decidido a rejeitá-la, algo que muda rapidamente quando o vilão descobre que a garota é uma transmorfa poderosíssima. Com os poderes de Nimona e o cérebro de Ballister, a dupla dá início a um plano “maligno” que tem por objetivo desestabilizar o reino e exorcizar demônios do passado (esses últimos demônios são metafóricos). Tudo isso em um universo que mistura tecnologia contemporânea com magia e estética medieval.

A melhor característica deste gibi é sua crítica política. Ainda que pegue leve demais com a mídia independente, a HQ questiona narrativas oficiais e discursos institucionais; argumenta que os detentores dos meios de comunicação possuem a capacidade de controlar a opinião pública, de moldá-la de acordo com seus próprios interesses – neste caso, aproveitando-se das circunstâncias para criar vilões que devem ser combatidos por um herói. Em tempos de Fake News essa mensagem não poderia ser mais importante, ESPECIALMENTE em um quadrinho tão acessível para o público infantil.


“Escolhi? Eu nunca tive escolha! A instituição precisava de um vilão. Sobrou para mim. Nunca escolhi essa vida. E podia muito bem ter sido você, caso o ‘acidente’ tivesse sido outro!”

A arte e o roteiro de Noelle Stevenson são impecáveis. O ritmo da história é perfeito e é desenvolvido através de desenhos cartunescos mas que não pecam por falta de coerência interna, algo que costuma ser um problema para artistas que estilizam muito seus desenhos (eu sou um chato do caralho, mesmo). Stevenson constrói um universo cheio de diversidade onde homens e mulheres de todas as etnias e raças (afinal, isso ainda é uma fantasia medieval) surgem representados, o que fortifica o caráter paradidático da obra. Não faltam momentos de tirar o fôlego nem reviravoltas instigantes e tudo isso está amarrado pelo subtexto de desobediência às autoridades, resistência popular e união. E para coroar, o desenvolvimento do conflito entre Ouro-Pelvis e Coração-Negro é uma das melhores metáforas narrativas que eu já li em quadrinhos: ambos são personagens com personalidades extremamente realistas, porém, muito distintos entre si e, portanto, acabam tendo funções diferentes para a “instituição” (ou eu já deveria estar dizendo Estado?): um é um lobo, o outro é um lobo em pele de cordeiro.

“Quer que eu balance os braços, bradando que minha vingança será maligna?”

E se você estranhou a ausência de menções à protagonista que nomeia a obra, isso é porque ela não é o ponto central aqui. Por mais que Nimona seja o estopim de tudo que ocorre, Stevenson foca seu esforço - muito sabiamente, na minha opinião - sobre questões políticas e sociais. A personagem é sim desenvolvida (adoro, particularmente, a maneira com a qual ela pode manipular totalmente sua imagem e escolhe uma aparência atípica, alternativa; algo que fala muito sobre quem ela é sem precisar de nem sequer um balãozinho), e possui um arco tão emotivo quanto triunfante; porém, acabou não sendo o que mais me chamou atenção.


Vencedor do Eisner, "Nimona" é um quadrinho repleto de elementos interessantes que são transmitidos por meio de um estilo simples, dinâmico e bem amarradinho. Meu único gravame com o gibi é a ambientação que, como eu já disse, é uma mistura de medieval com futurista. Não há nada inerentemente errado com isso e não gera nenhuma complicação desnecessária na história, só não me agrada, é meio caloso.

Para quem gosta de um quadrinho feito da maneira correta, não tem como não gostar.

Autor: Noelle Stevenson
Editora: Intrínseca
Número de páginas: 272
Classificação: ★★★★★♥/✰✰✰✰✰

2 comentários:

  1. Não sou muito fã de HQs, mas se quando leio alguma procuro fugir do universo Marvel/DC, que já acompanho pelos filmes mesmo, gostei da premissa de Nimona, parece ser uma leitura bem leve a divertida!

    www.estante450.blogspot.com.br

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    1. Eu adoro HQs, mas Nimona está em um nível completamente diferente, não é só uma história de heróis vs vilões... AMO hahahahaah

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