terça-feira, 15 de novembro de 2016

[Resenha] O Rei de Amarelo

Título: O Rei de Amarelo

Título original: The King in Yellow

Autor: Robert W. Chambers

Editora: Intrínseca

Número de páginas: 


Sinopse: 'O Rei de Amarelo' é uma coletânea de contos de terror fantástico publicada originalmente em 1895 e considerada um marco do gênero. Influenciou diversas gerações de escritores, de H. P. Lovecraft a Neil Gaiman, Stephen King e, mais recentemente, o escritor, produtor e roteirista Nic Pizzolatto, criador da série investigativa True Detective cujo mistério central faz referência ao obscuro Rei de Amarelo. O título da coletânea faz alusão a um livro dentro do livro - mais precisamente, a uma peça teatral fictícia - e a seu personagem central, uma figura sobrenatural cuja existência extrapola as páginas. A peça 'O Rei de Amarelo' é mencionada em quatro dos contos, mas pouco se conhece de seu conteúdo. É certo apenas que o texto, em dois atos, leva o leitor à loucura, condenando sua alma à perdição. Um risco a que alguns aceitam se submeter, dado o caráter único da obra, um misto irresistível de beleza e decadência. Esta edição reúne, além dos contos do Rei, seis outros que alternam entre o sobrenatural e a realidade, em épocas e geografias diferentes. A introdução e as notas do jornalista e escritor Carlos Orsi, ajudarão novos leitores a mergulhar na bem construída mitologia do autor.

Robert Chambers foi um autor cuja obra inspirou alguns dos mais influentes autores de horror da atualidade. Sua narrativa incômoda conquistou a admiração de grandes nomes com Lovercraft, porém, seu legado foi eclipsado por sua produção de obras românticas de cunho pueril e estritamente voltadas ao sucesso mercadológico. Em vida, Chambers enriqueceu e priorizou seus livros menos densos, contudo, é sua obra de horror que permanece digna de republicações até hoje. 

“O Rei de Amarelo” não é uma obra concisa: trata-se de uma coletânea de contos cuja única ligação é a existência, dentro do universo literário criado pelo autor, de uma peça de teatro homônima que parece ter um efeito enlouquecedor sobre as pessoas que se arriscam a lê-la, devido à sua capacidade de desnudar os pecados da humanidade de maneira aterradora. O texto deste livro misterioso não pode ser encontrado em nenhum dos contos, apenas excertos e referências espaçadas podem ser encontradas entremeio os contos, preservando as características sobrenaturalmente perturbadoras da obra (desconhecer o conteúdo do tal livro é crucial para tornar a obra crível, já que nada escrito por mãos humanas poderia ser chocante a este ponto). Neste contexto, somos introduzidos à realidades fictícias que dialogam com seu tempo de maneira bastante contundente: o futuro “utópico” americano, onde uma sociedade racista e antissemita conquistou hegemonia militar e paz social, mas que necessita da institucionalização de “Câmaras de Suicídio” para aplacar a vontade de seu povo de tirar a própria vida; aristas plásticos cuja ambição por atingir as formas perfeitas o levam à tragédia; etc. E cada um destes contos acaba servindo de comentário para certos aspectos da sociedade, especialmente burguesa, que podem ser observados até os dias de hoje, como o homem que vai à igreja para “ser visto” mas não aguenta a cerimônia e acaba pegando no sono, ou o artista cujo amor o leva ao delírio assassino (Each man kills the thing he love,/By each let this be heard). 

Aliás, muitos dos protagonistas de Chambers são artistas, como se os versos daquela peça de teatro demoníaca surtissem maior efeito sobre esta “classe”, ou como se eles estivessem mais sujeitos a estes questionamentos tão comuns a todos nós mas que nos escapam na medida em que tememos confronta-los, afinal, um bom artista seria aquele capaz de nos fazer crescer enquanto seres humanos o que o forçaria a se colocar diretamente contra as questões mais particulares e menos agradáveis que carregamos no peito. Não é à toa que grandes nomes como Wilde e Baudelaire foram rechaçados pela sociedade sobre qual suas obras diziam respeito, sociedades tão preocupadas com as aparências, com a manutenção de uma ordem através da mentira. Chambers busca inspiração nestes autores mas vai além, introduz estes dramas por meio da ameaça real (como, por exemplo, quando um personagem está criticando outro em pensamento e, sem explicação nenhuma, o alvo das críticas parece ouvi-lo e começa a prossegui-lo por Paris, dando a entender que aquelas pessoas temem dizer o que pensam por medo de seres vistas rompendo com o status quo). 

“O Rei de Amarelo” é um livro escrito de maneira bastante amena e agradável, até mesmo quando o autor descreve situações ou objetos de caráter desagradável ou nojento. A escrito fluida de Chambers facilita a compreensão da maioria dos eventos, porém, em alguns pontos pode haver confusão dada uma falta de termos que parece haver no discurso do autor para descrever certas coisas: a impressão que fica é que o jargão do horror ainda não havia sido propriamente desenvolvido e que o autor estava sendo obrigado a trabalhar com conceitos relativamente abstratos sem as ferramentas necessárias. No mais, este livro pode não ser a melhor pedida para quem procura uma obra de terror mais genérica, visto que seu horror não nos causa muito efeito hoje em dia. A beleza destes contos encontra-se no subtexto, no mistério e na narrativa brilhantemente empregada.

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