quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

[Resenha] Eu Sou a Lenda


Título: Eu sou a lenda

Título original: I am legend

Autor: Richard Matheson

Editora: Aleph

Número de páginas: 382

Skoob: Adicione a sua estante

Sinopse: Robert Neville é o último homem vivo sobre a Terra... mas ele não está sozinho. Cada outro homem, mulher e criança na Terra se tornou um vampiro, e todos estão famintos pelo sangue de Neville. De dia, ele é o caçador, caçando os não mortos adormecidos através das ruínas abandonadas da civilização. À noite, se entrincheira em sua casa e reza pela madrugada.



Richard Matheson é tido por muitos autores de renome como uma grande influência, e a leitura de sua obra prima “Eu sou a lenda” demonstra claramente o porquê dessa reputação tão estelar. Seu estilo é quase minimalista, talvez até cinematográfico, não fosse o apreço que ele demonstra pelo conflito psicológico de seus protagonistas. Matheson constrói seu mundo com maestria, com uma paciência e meticulosidade louváveis e que serão responsáveis por momentos de extrema felicidade, desespero, desolação, solidão e, em última instância, reverência. E caso você seja um daqueles que lê coisas tipo “conflito psicológico”, “obra prima” e “sentimentos verdadeiros” e pensa “chato...”, tenho uma coisa pra lhe dizer: ainda não é tarde para você, você ainda pode se matar. (s2)

“Não fazia ideia de quanto tempo havia permanecido ali. No entanto, até mesmo a tristeza mais profunda enfraquecia com o tempo, até mesmo o desespero mais profundo não cortava como antes. A maldição do torturado, pensou, é crescer acostumado até mesmo ao açoite.”

A história é centrada sobre Robert Neville, um americano de classe média que, por motivos por ele desconhecidos, é imune a uma doença igualmente misteriosa que mata suas vítimas e as traz de volta a vida não como zumbis, e sim como vampiros. Porém, os vampiros de Matheson são bem diferentes dos de Anne Rice, por exemplo. Não são os galãs hollywoodianos acometidos por uma maldição antiga que os força a vagar a noite à procura de sangue fresco, não são atormentados por sua natureza, não gostam do que fazem, enfim, nem sequer pensam no que fazem. De fato, os vampiros de Matheson se assemelham muito mais aos zumbis de George Romero que com os vampiros de Bram Stoker. São criaturas semi-irracionais, atreladas aos seres humanos que uma vez foram apenas por seus corpos empalidecidos e por flashes de suas personalidades que surgem aleatoriamente sem nenhum motivo em específico, como os gritos de “Sai, Neville!” que Bem Cortman profere inutilmente ao longo de toda a trama. Que fique claro: não há nada de errado com as múltiplas interpretações que foram criadas sobre vampiros ao longo dos anos, Rice e Stoker são clássicos assim como Matheson, suas obras são igualmente relevantes. O objetivo aqui é apenas ressaltar as diferenças, então pegue sua bombinha de ar e se acalme um pouco.


Nota: "Quem convidou ele?" 
"Rápido Nosferatu, venha para o lado preto e branco!"
"Que absurdo essa juventude..."

Neste contexto, Robert Neville, que perdeu toda sua família e amigos para a doença, é o último ser humano vivo no mundo - ao menos no mundo que ele é capaz de perceber - e a única fonte de alimento que sobrou. Todas as noites, assim que o sol desaparece, eles vêm a casa de Neville, gritam, destroem, ameaçam, se oferecem libidinosamente, tentam de tudo para forçar o homem a sair de sua fortaleza e lhes entregar sua vida. Todos os dias, Robert Neville considera os estragos, conserta o que pode ser consertado, substitui o que deve ser substituído, reforça suas proteções, e se prepara para a próxima noite (qualquer semelhança com Minecraft deverá ser ignorada imediatamente). Teve, inclusive, de incendiar toda sua vizinhança para impedir que os vampiros alcançassem seu telhado pulando de uma casa vizinha. Ele vive para sobreviver, toda sua vida gira em torno de garantir mais um dia, mais uma noite, sem saber ao certo que força misteriosa o impede de tirar sua própria vida e acabar de uma vez com a angústia (afinal, que força misteriosa impele um homem adulto a jogar Minecraft até hoje? Não me perguntem, não consigo explicar todas as minhas ações).

Ele fechou os olhos. Por que pensar, por que raciocinar? Não havia resposta. Sua continuação era um acidente e uma insubordinação impassível. Ele era apenas muito idiota para dar um fim a tudo e isso meio que resumia a situação.


Aqui conhecemos a angústia que acomete aquele personagem e é completamente impossível não se identificar com seus sentimentos. A tristeza da solidão, os surtos psicossomáticos resultantes do celibato forçado, a memória da família, dos amigos, do trabalho. Neville se vê sentindo saudades até mesmo das coisas que odiava antes da epidemia, tentando se enclausurar em sua casa, tentando, sem sucesso, abafar os gritos do lado de fora com álcool e música estridente (mais uma sexta-feira na minha vida, ha ha ha *barulho de enforcamento*). Torna-se autodestrutivo, depois se arrepende dos danos que causou a si mesmo, considera o suicido mas nunca chega ao ponto de realmente puxar o gatilho. Se agarra a cada resquício da vida passada, procura desesperadamente uma companhia, qualquer coisa. O protagonista é dolorosamente humano e a maneira como ele vive vai deixar qualquer leitor que tem muita empatia de olhos embargados e com um nó na garganta (eu acho... he he he).

Sem dar muitos spoilers, um dos principais pontos em que essa angústia fica evidente é na relação do protagonista com Bem Cortman, o vampiro que lhe chama todas as noites e que, em vida, foi amigo de Robert. Além disso, temos o vira-lata doente que Robert encontra e procura cuidar. Em ambos os casos, o livro transborda uma verdade artística tão profunda que fica difícil não considera-lo uma obra prima.

O cachorro olhou para ele com seus olhos embotados e doentes, e, então, sua língua se agitou para fora e lambeu áspera e umidamente [sic] toda a palma da mão de Neville.
            Algo se soltou no peito de Robert. Permaneceu ali sentado, em silêncio, enquanto lágrimas corriam por seu rosto.

Toda essa tensão psicológica é quebrada pontualmente pela minuciosa tentativa do autor de justificar cientificamente a existência daqueles vampiros, representada na trama pelas educação autodidata do protagonista que, em posse de muito tempo livre, procura aprender, descobrir e curar a doença. Isso tudo é perigoso, poderia ter estragado o livro se um homem qualquer, sem formação acadêmica nenhuma, simplesmente aprendesse tudo sobre a biologia vampírica usando seus instrumentos precários e desenvolvesse uma cura que extirpasse a doença da face da terra. Porém, o autor é muito mais inteligente do que isso. Transforma essa busca em mais uma faceta do profundo desenvolvimento psicológico presente na obra, trata-se de mais uma tentativa do protagonista de atrasar sua morte, de justificar com que não deveria simplesmente se matar e acabar com seu próprio sofrimento. Em muitos aspectos, “Eu sou a lenda” é um livro que fala sobre propósito, onde, neste cenário pós-apocalíptico em que nenhuma das estruturas sociais que guiavam a existência do protagonista existe mais, ele percebe que não tem por quê viver mas se recusa a morrer mesmo assim. Chame de “natureza humana” ou de simples covardia frente ao suicídio, Robert Neville é reduzido ao seu mais básico extinto do ser humano e sua vida só acaba quando a própria natureza do que significa ser humano deixa de fazer sentido.

 Para além disso, as justificativas científicas que embasam a existência dos vampiros são muitíssimo criativas e, ao menos para mim, muito bem elaboradas. Pode incomodar quem for profissional da área de biológicas, mas se você conseguir remover sua cabeça de dentro do seu anus e perceber que tudo não passa de pseudociência autodeclarada inventada com o único propósito de mover a trama, talvez você consiga se divertir (e deixar de ser uma pessoa tão, chata). Matheson extrapola conceitos biológicos no esforço criativo de pensar: “se estes meus vampiros existissem no mundo real, como funcionariam seus corpos?”.

Normalidade era um conceito de maioria, um padrão de muitos e não apenas de um homem.


No mais, caso o filme de Will Smith tenha lhe desestimulado a ler o livro (como deveria, se você for são), não se preocupe: há poucas semelhanças entre eles. A premissa inicial é a mesma, porém, todo o desenvolvimento é diferente. Ao passo em que o livro é uma história angustiante de um homem que vaga sobre as ruínas da humanidade em busca de propósito, o filme não passa de mais uma má adaptação que deturpa conceitos chave do material fonte com o intuito de fazer maior bilheteria. Há instâncias em que isso funcionou, porém, não é o caso aqui. O roteiro do filme beira o patético se comparado com a estelar narrativa de Richard Matheson. E mesmo se analisado como obra separada, sem levar em consideração o vínculo entre a obra cinematográfica e a literária, o filme se demonstra fraco e arrastado, ancorado em clichés viscosos sem a mínima pretensão artística. É uma pena, porém, talvez estimule uma futura adaptação que procure se ater mais aos valores do livro (ou que destrua ainda mais sua reputação, como é de praxe).

Richard Matheson é um grande autor cuja obra vai de 1950 até 2010. Dentro de seu vastíssimo catálogo, “Eu sou a lenda” brilha como um dos maiores romances lidos na vida deste que vos escreve mal e porcamente (com o perdão da metáfora suína, tão super utilizada). Se conta alguma coisa saber, com certeza procurarei outros livros do autor, e recomendo este a qualquer um que queira ler alguma coisa em algum momento da vida (recomendaria até mesmo ao meu pior inimigo porque presumo que a leitura o faria rever seus conceitos e deixar de seu um idiota completo). Vale a pena, gente. Sério.

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