segunda-feira, 27 de março de 2017

[Resenha] The Warriors: Os Selvagens da Noite

Título: The Warriors: Os Selvagens da Noite

Autor: Sol Yurick

Editora: Darkside books

Número de páginas: 274


Sinopse: No livro, os guerreiros em questão são membros dos Dominators de Coney Island, acusados, injustamente, pelo assassinato do líder que tentava unificar as gangues. Jurados de morte, os Dominators não têm outra alternativa além de fugir, atravessando territórios inimigos sem nunca saber em que beco sombrio a Morte se esconde. Inspirado nos então chamados delinquentes juvenis que Sol Yurick conheceu de perto ao trabalhar como assistente social, os personagens são anti-heróis de carne osso, capazes de atos de bravura e covardia com igual intensidade. Um retrato fiel dos conflitos de jovens à margem da lei durante uma época de contestação social, conflitos raciais e revoluções criativas. Dos hippies ao hip-hop. De Tarantino à Armação Ilimitada. O cinema, os games, a música, a moda e a street art beberam dessa mesma fonte. É hora dos guerreiros originais reconquistarem seu território na cultura pop. Leia The Warriors e descubra por que esse romance, escrito há cinquenta anos, continua mais atual do que nunca.

Se me pedissem para resumir os sentimentos invocados por Sol Yurick em Os Selvagens da Noite com uma palavra, depois de muita ponderação, provavelmente diria algo na linha de “sufocante”. Não vou mentir, o livro me surpreendeu muitíssimo, especialmente por conta das impressões que tinha de sua adaptação cinematográfica de 1979, dirigida por Walter Hill (sobre a qual tentarei comentar mais abaixo). A diferença de tom entre as duas mostrou-se incrível, muito embora a maioria dos elementos estéticos do original estejam presentes na adaptação. Por conta disso, acho que vale a pena, especialmente para quem for entusiasta do filme, conferir o livro que lhe deu origem.


The Warriors, de 1979, é o tipo de filme que, mesmo com um letreiro enorme nos créditos de abertura, poucos sabem se tratar de uma adaptação. Tive minha fase de obsessão por esse filme assim que descobri as referências à Anábase: o filme que parecia ser nada além de um clássico cult reverenciado por suas cenas de ação ganhou uma camada de complexidade da qual não consegui me desvencilhar por um bom tempo. A partir daí, quando me abri para ver a obra enquanto arte e não apenas como produto cinematográfico, me apaixonei pela direção de Walter Hill, especialmente pela sequência de créditos iniciais. Até hoje acho genial a maneira como o diretor usa as luzes do icônico parque temático de Coney Island para criar um ambiente sombrio, onde o bucólico reluz engolfado pela escuridão; a maneira como o trem, essencialmente o veículo que conduzirá os guerreiros por suas provações, surge lentamente das trevas, como uma gigantesca criatura ofídica ou talvez uma embarcação do Caronte adaptada para a realidade do século XX. Essa obsessão pelos créditos iniciais fez com que eu iniciasse o filme com o único intuito de assistir aos primeiros minutos e, em uma dessas ocasiões, vejo pela primeira vez o enorme “based on the novel by Sol Yurick” que meu cérebro tantas vezes ignorou. Desnecessário dizer que me tornei obcecado por conseguir uma cópia do livro, obsessão essa que acabou abruptamente assim que meu trem do hype colidiu com a imensa barreira imposta pelo mercado editorial brasileiro que, surpreendentemente, não havia publicado o livro aqui. Felizmente, não tive de esperar muito mais de dois ou três anos para que a Darkside publicasse uma versão excelente da obra, que conta com um artigo imperdível do próprio Sol Yurick que, na minha opinião, vale o livro. Neste artigo – a saber Como escrevi ‘The Warriors’ e o que aconteceu depois – o autor destrincha etapa por etapa de seu processo criativo, apontando todas as referências que lhe inspiraram, as que procurou inserir no livro e até aproveita para comentar com muito bom humor o “mal estar” que sua presença causou no set do filme. Presumo que não seja difícil encontrar este artigo na internet e, sinceramente, creio que valha a leitura da qualquer maneira, portanto, não comentarei seu conteúdo aqui. Ao invés disso, me dedicarei a expressar apenas minhas observações sobre a narrativa em si.

A primeira impressão que fica, para amarrar melhor esse meu prolixo segundo parágrafo, é que The Warriors de 1979, apesar de ser um bom filme, poderia ter sido muito melhor não fosse a influência hollywoodiana (talvez o aspecto mais nojento dessa influência seja a substituição das etnias dos protagonistas, enquanto no livro os Dominadores são todo negros para mostrar como a pobreza afeta certas camadas sociais de maneira diferente de outras, no filme os Guerreiros são um grupo multicultural de galãs onde o líder pela maior parte do filme é Swan, um garoto loiro - primeiro sinal de covardia). O material fonte oferecia muito mais do que o filme se propôs a entregar, especialmente no que tangem as simbologias e as sequências de ação. Creio que seja desnecessário reforçar aqui que uma adaptação não tem uma obrigação inerente de respeitar o material fonte em sua plenitude, porém, é de se lamentar o desperdício de um potencial tão grande, especialmente por que Selvagens da noite, de 1965, é um livro que trata de questões psicossociais relacionadas à juventude desfavorecida relevantes até hoje. É claro que o filme não teria se tornado um clássico se tivesse demonstrado a coragem de pôr o dedo nas feridas abertas pelo livro, talvez eu nem viesse a conhecer o original justamente por conta disso. Portanto, créditos a Walter Hill por produzir um filme tão icônico e que me abriu as portas para um livro tão fantástico – embora ainda ache que o nome de Sol Yurick devesse aparecer maior nos créditos iniciais (ou só eu ignoro o nome das pessoas que dedicam suas vidas a produzir obras de arte para meu entretenimento?).

A segunda impressão é que Selvagens da noite é um livro cru. Yurick não segura a mão em nenhum momento, fazendo com que certas partes do livro sejam até difíceis de acompanhar. A violência que as CRIANÇAS do “Dominadores de Coney Island” empregam não é retratada como algo descolado ou digno de aplauso, muito pelo contrário: há momentos em que o leitor terá dificuldade em simpatizar com os personagens principais justamente por conta do teor da violência que eles empregam em sua jornada. Aqui não há sequencias de ação cuidadosamente estruturadas para que imaginemos o exato momento em que o punho do mocinho acerta o estomago de seu rival livrando a mocinha de suas garras sujas. Nossos protagonistas são membros de gangues de verdade, demonstram ódio mortal pelas estruturas da sociedade que os forçou a viver assim e descarregam essa frustração terrível em cima de gente inocente e desprotegida. Roubam, agridem e estupram sem discriminar, não se preocupam com nada além de seus pares, não veem motivo para sobreviver a não ser ao lado de seus irmãos de gangue, seus irmãos de batalha. Contudo, embora seja difícil para qualquer um acompanhar a jornada de personagens tão maldosos, Sol Yurick consegue construir uma narrativa que, ao passo em que não dilui a culpa dos protagonistas, os retrata como seres quebrados, destituídos de moral em virtude da falta de educação e amor. Os Dominadores são filhos do ódio, do sofrimento, da sede de vingança e da falta de perspectiva, querem viver rápido, amar muito, e morrer com suas máscaras. Ou seja, embora seja impossível simpatizar com as atitudes dos protagonistas, é impossível não enxergar os paralelos que essas atitudes tem com nosso mundo (em especial com a sociedade brasileira). É claro que existem pessoas que passam por situações piores e não cometem esse tipo de violência terrível, e é importante ressaltarmos que o ambiente só influencia o indivíduo até certo ponto, e que sua individualidade também conta sobre sua ética, contudo, não é por conta disso que devemos virar a cara para as questões estruturais que propiciam este tipo de ambiente (como é o ditado? “Um erro não justifica o outro”?). Todo criminoso também é produto do sistema, e não é por que a maioria de nós opta por viver na margem da legalidade que devemos simplesmente aceitar as condições do jogo, muito pelo contrário. Se Selvagens da noite faz alguma coisa, é mostrar como até mesmo crianças, seres que a maioria de nós consideraria inofensivos e incapazes de qualquer mal, podem ser moldadas e transformadas em agentes do caos se não houver perspectiva de vida. Parafraseando o grande Mike Tyson - que, inclusive, também foi vítima de seu ambiente, filho de um pai que, tudo indica, era cafetão de sua mãe – “intimidação é uma arte sensível: você pode intimidar uma pessoa a ponto de fazer com que ela exploda contra você”.

Arte de Tomer Hanuka
         
Essa explosão descontrolada contra a sociedade se materializa na figura de Ismael (basicamente o Cirus do filme – uma coisa engraçada é que o Ismael do livro se parece físicamente muito mais com o substituto de Cirus no filme... vai entender), que, assim como no filme, convoca um conclave com todas as gangues da cidade. A proposta dele é simples: organizar toda essa juventude destituída de direitos em um grande exército com o intuito de dominar a cidade. A figura de Ismael é muito interessante. Ele é retratado com um adolescente duro, estoico como um espartano, que fala com seu agente social através de um emissário. Sempre de óculos escuros, Ismael exerce seu domínio sobre sua gangue, a maior da cidade, sentado em seu trono: uma cadeira de engraxate. Esse tipo de detalhe funciona de maneira brilhante para conjurar um universo absolutamente fascinante, onde esses párias, uma vez forçados a viver na marginalidade, acabaram construindo sua própria “sub-sociedade”. A gangue principal também demonstra uma estrutura interna interessante, mas que serve, por sua vez, para demonstrar como aqueles jovens vem uns aos outros como os irmãos que não tem em casa. A hierarquia dos Dominadores, divididos em Pai (o chefe), tios e irmãos não é apenas uma hierarquia militar adaptada: seus nomes revelam justamente o que aqueles jovens procuram na criminalidade. E a maneira como os planos de Ismael são frustrados é brilhante na construção da mentalidade daqueles delinquentes juvenis. Eles não confiam uns nos outros, a maioria está receosa de ter que sair de seu próprio território e, enquanto Ismael explica detalhadamente como eles são vítimas de um sistema opressor, como possuem as ferramentas necessárias para assumir o controle, como poderiam proclamar para si os direitos que o Estado lhes nega, um pequeno desentendimento entre gangues rivais provoca um grande tumulto e, no meio do rebuliço, o rei dos criminosos é morto. O plano tinha um potencial esplendido, porém, aqueles garotos não estão mais interessados em vencer na vida: tudo que tem em vista é o bem estar de seus companheiros e é isso que importa.

As dinâmicas internas da gangue também são algo muito bem desenvolvido no livro. Os Dominadores possuem rituais de guerra, eles marcham organizadamente e estão sempre provando sua masculinidade um para o outro através da violência e da misoginia. Ao contrário do filme, estupro e assassinato são tratados como condições inerentes à condição de quadrilheiro. Novamente, Sol Yurick está preocupado com uma representação realista do que significa fazer parte de uma gangue e não com sequencias de ação em câmera lenta. A violência do livro não é glorificada em nenhum momento justamente porque não há nada de louvável nela. Ela é catártica, e não defensiva. Quando praticam sua violência, os Dominadores são bullies, e não vítimas. No entanto, ao final da jornada, não há como não se emocionar com a ingenuidade daqueles garotos que, logo depois de tocar seu solo sagrado, tornam-se crianças bobinhas, brincando com objetos no chão, correndo livremente pelas ruas desertas. E o lar do protagonista... enfim, não há muito mais sobre o que falar.

Selvagens da noite é um livro difícil não por sua linguagem, e sim por seu conteúdo. Não é uma obra escapista, da qual podemos nos valer para escapar da realidade terrível onde vivemos. Pelo contrário, Yurick estimula o leitor a voltar sua visão justamente para essa realidade, porém, a partir de uma perspectiva diferente, a perspectiva do bandido/ vítima. Creio que é possível traçar um paralelo entre este livro e o excelente Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, na maneira como ele retrata essa realidade: sem remorso, sem meias palavras, cru, direto e assustador. Em suma, sufocante.

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